Actions

Work Header

A bruta flor do querer

Work Text:

Seção de terror. Uma, duas, três capas de plástico. Baekhyun conhecia todos aqueles filmes e, mais do que isso, suas embalagens gastas e o lugar exato onde eles ficavam nas prateleiras. Também conhecia todas as comédias e os romances disponíveis no sebo em que trabalhava, desde os filmes até os livros — para onde olhava agora enquanto empilhava todos os títulos com o apoio do braço para depois checar as etiquetas e devolver tudo ao seu lugar.

Era uma vida monótona, mas ele não ligava muito. Talvez trabalhar num lugar assim tivesse algum charme, mas não quando se tem 27 anos e um diploma em direito que nunca serviu para nada. Após anos e anos se martirizando por fracassar todas as expectativas de sucesso que seus pais depositavam em si, ele simplesmente aceitou. Aceitou que nunca iria ter prazer com o trabalho, muito menos poderia fazer o que gostava de fazer.

 

Baekhyun sonhava em ser cineasta.

 

Amava o cinema desde criança e antes se imaginava como ator, com todo o glamour e fama intrínsecos às posições de destaque de dramas e sequências de cinema, porém, descobriu gosto por estar atrás das câmeras.

Chegou até a dirigir um curta, baixo orçamento, e nunca passou disso. O mais próximo, onde estagnou, foi no emprego de balconista de sebo, onde lidava com filmes diariamente, catalogando recebidos e comprando coisas velhas que ninguém queria mais. Isso e os bicos de filmar casamento que fazia sempre que Jongdae precisava de mão de obra barata.

Com tudo, Baekhyun concluiu que a vida era uma droga e que sonhar não valia nada quando você não tinha dinheiro algum. As coisas não caem do céu.

 

Exceto por Chanyeol.

 

Num desses trabalhos que Jongdae ofereceu, Byun Baekhyun conheceu Park Chanyeol. Formou a equipe de filmagem do casamento da irmã mais velha do Park, um evento chiquérrimo que foi documentado do início ao fim como se ela fosse da família real ou algo assim. Mas diferente da irmã, intocável e sublime, e do cunhado, igualmente excepcional, Chanyeol tinha um ar confortável, familiar. Ele foi a âncora do Byun naquele dia, quando se sentiu totalmente desajustado.

Primeiro tinha o traje formal completo. Para um cameraman. Era ridículo, mas até aí tudo bem, Jongdae iria pagar isso também. Depois tinha toda uma exigência de ângulos que podiam filmar, lugares onde não poderiam transitar livremente e coisas que não podiam comer. Como se fossem bichos. Ou pior que isso.

A merda foi que ninguém proibiu a bebida e Baekhyun foi de estômago vazio porque achou que iria comer na festa. Nada feito. E enquanto segurava a filmadora no ombro e tentava manter o equilíbrio para registrar a chegada dos convidados que entravam pela lateral do salão, ele teve o olhar fisgado pela figura do homem alto perto do altar. Estava com terno e calça claros, a camisa tinha um babado discreto e ele ajeitava um arranjo de flor no bolso. O cabelo castanho caia perfeitamente sedoso sob os olhos, revelando que ele gastou horas no salão — nenhum cabelo era daquele jeito naturalmente, Baekhyun sabia.

Perdeu tempo demais olhando, o outro notou. O Byun era sempre assim, o olhar suave feito um atropelamento, era impossível disfarçar. Quando percebeu, a câmera estava apontando para o chão. O homem sorriu para ele, mas se distraiu quando um grupo de pessoas chegou e começou a conversar alto.

— Baek, isso mesmo, filma o Chanyeol. O irmão da noiva tem que aparecer bastante. — Jongdae avisou, levantando a câmera e cutucando o colega.

— Quem é Chanyeol? — perguntou meio atordoado, prestando atenção no equipamento. Se quebrasse aquela câmera teria que fazer um empréstimo para pagar e aquilo estava fora de cogitação.

— O cara de terninho creme pra quem você ‘tá olhando feito idiota faz meia hora — respondeu rindo, deixando Baekhyun sozinho.

 

A resposta para “Quem é Chanyeol?” talvez tenha sido o ponto de virada da sua vida. Chanyeol mudou muitas coisas em Baekhyun. No dia da festa, inclusive, ele foi surpreendido pelo Park e um pratinho com um pedaço de bolo e outras comidas do evento.

— Fiquei sabendo que o pessoal da filmagem não pode entrar no salão para comer, então eu trouxe para você — informou. Doce demais, Baekhyun quase derreteu no ato.

Óbvio que Chanyeol fez isso com todos da equipe, mas na hora pouco importou. A euforia em receber a atenção do maior era extasiante. Ele queria sentir aquilo todos os dias. Ficou a festa toda pensando se deveria ou não pedir o telefone do Park. Podia tentar conseguir com Jongdae, claro, porém, achou que cabia a tentativa na situação.

Baekhyun sempre soube que era gay. Nenhuma crise, descoberta dura demais ou uma jornada do herói. Sempre soube e ponto. Mas ansiou para que Chanyeol pudesse correspondê-lo nesse sentido — e a confirmação veio do jeito mais amargo possível.

Quando encheu o peito de coragem para balbuciar qualquer coisa que pudesse soar como um convite para um café ou uma troca de números do Kakao para onde ele, com certeza, enviaria mensagens vergonhosas num dia qualquer que estivesse bêbado, um moreno baixinho apareceu e entrelaçou os braços na cintura de Chanyeol, quase sumindo atrás dele.

— Estava sentindo sua falta. — O homem murmurou contra as costas do maior, suspirando. Baekhyun mal o conhecia e já o odiava unicamente porque ele podia fazer aquilo. — Você sumiu.

— Ah, amor, esse é o Baekhyun. — Chanyeol os apresentou, mas mal dava para ver o rosto do outro. — Baek, esse é o Kyungsoo, meu namorado.

— É um prazer, Sr. Kyungsoo. — Baekhyun respondeu, tentando não tremer demais a voz e arranjar problemas.

Kyungsoo soltou Chanyeol só para ficar ao seu lado e passar de novo a mão pela sua cintura, olhando Baekhyun de cima a baixo.

— Oi, Baek — repetiu o apelido que o namorado usou. Sorriu como se constatasse que Baekhyun não era nenhuma ameaça, atestando que ele, sim, era superior. O mesmo ar de todos daquele lugar, menos Chanyeol. — Estão te procurando no salão. Yoora quer tirar fotos com você.

— Estou indo! Até mais, Baek. — Saiu acenando, deixando os dois sozinhos.

Kyungsoo usava um conjunto da mesma cor da roupa de Chanyeol. Era a cor dos padrinhos. Tinha o cabelo bem aparado, a boca definida e os olhos intensos, que desarmaram toda a confiança que Baekhyun tinha amontoado até agora.

— O jantar da produção vai ser servido na cozinha dos fundos — avisou. — Não precisa pedir comida, é só ir até lá. — E virou as costas, deixando um cameraman raivoso para trás.

Por sorte, o medo de quebrar o equipamento era maior que tudo e ele apenas respirou fundo, voltando ao seu posto e com a confirmação de que nunca teria Chanyeol. Pelo menos não pelos meios convencionais.

Antes disso, tinha comentado com o Park que trabalhava num sebo. O que foi muito interessante, ainda mais quando Chanyeol contou que curava galerias de arte e gostava muito de ler — e mais que isso, de ficar procurando dedicatórias em livros vendidos ou doados. Baekhyun sempre recebia uns assim, então se comprometeu a segurar os mais interessantes para Chanyeol. Era o único sebo do centro de Seul, não tinha como ele errar.

E era para ele que Baekhyun olhava agora, enquanto colocava de volta todas as versões de Sexta-feira 13 disponíveis para locação no lugar. O Park vinha sempre, sentava-se num banquinho e folheava livros como se tivesse todo o tempo do mundo. O estabelecimento era bem arejado, convenientemente dividido entre livros e filmes, discos e quadrinhos — um café seria aberto próximo do caixa logo mais —, por isso o Byun tinha uma visão perfeita do outro lendo.

A calça preta justa na canela, o tênis que devia valer uns dois salários do balconista, e um casaco igualmente caro; ele estava deslumbrante como todos os dias. Incomodava o brilho da aliança no dedo, óbvio, e ela reluzia sempre que ele mexia as mãos grandes para trocar a página do livro gasto. O sinal irrefutável de que ele era inalcançável. Qualquer pessoa que pensou o contrário, algum dia, estava errada.

Chanyeol lia com afinco, sorrindo para as folhas como se elas contassem a história mais interessante do mundo. Baekhyun ficou com a cara de sempre, olhando demais, e pensando em como gostaria de receber a mesma atenção.

— Oi, Baek! — Ele acenou assim que percebeu o menor olhando.

Quase derrubou todos os filmes quando a voz dele entrou em seus ouvidos. Acenou de volta e sorriu, então ele voltou a atenção ao livro. Poucos minutos depois, o celular de Chanyeol tocou e Baekhyun soube que era Kyungsoo só pelo jeito que ele falava.

— Estou na livraria — informou. Baekhyun corrigiu mentalmente, é um sebo, não uma livraria. — Sim, a que o Baek trabalha. Não, não precisa me buscar, amor, estou de carro. — Fechou o livro, marcando a página onde parou com o dedo indicador. Suspirou. — Tudo bem, vou ficar te esperando.

Merda. Quarta-feira e teria que ver Kyungsoo se esfregando em Chanyeol e o encarando como se fosse um cão de guarda. Merda.

Menos de vinte minutos depois ele chegou. Estacionou o carro bem na frente do lugar, Baekhyun sondou pela vitrine, e entrou imponente, fazendo todos olharem. Kyungsoo era herdeiro de alguma coisa, andava vestido como tal. Discrepante do namorado, mas ainda assim faziam um belo casal, era inegável.

— Baek, vou levar esses dois aqui. — Chanyeol avisou, abrindo a carteira. Kyungsoo segurou a mão do namorado. — Não, Soo, eu pago.

— ‘Tá tudo bem, eu atrapalhei seu tempo livre hoje. — Se desculpou, deixando um beijo no ombro do Park. Ele era insuportavelmente grudento, Baekhyun queria socá-lo (e tinha certeza de que sairia vitorioso, já que nada supera a força do ódio). — Aqui, Baek, pode ficar com o troco.

Deixou o dinheiro, talvez o triplo do valor dos livros, em cima do balcão, puxando Chanyeol pela mão. Ele acenou para o Byun, deixando o gosto amargo da derrota para trás. Ser lembrado de que nunca teria Chanyeol era como qualquer outra quarta-feira de trabalho onde tinha que ver a cara de Kyungsoo: uma merda.

 

[x]

 

— Minha mãe sempre dizia — começou Jongin, em uma de suas clássicas ladainhas, enquanto secava as taças de cristal com um pano qualquer. — … o ego vai te fazer chorar para abrir a porta de um lugar que não tem nada.

— Meu ego é a única coisa que me resta, Nini — respondeu, virando o resto da cerveja que já começava a esquentar no copo. Baekhyun era grato por seu amigo de infância ter aberto um bar. De longe, era uma das profissões mais convenientes, principalmente porque ele cobrava barato.

— Você sabe que está obcecado, certo? — Encheu o copo do amigo, colocando a franja de volta no lugar para encará-lo como se pudesse arrancar uma resposta diferente dessa vez. — Quer dizer, é até compreensível, ele é bonito e tudo mais. Mas, porra, Baek.

— E o que importa? Nunca vai acontecer nada, não com aquele namorado dele no caminho.

— Conheço uns caras que podem dar um jeito nele. — Sehun avisou, aparecendo atrás do balcão e abraçando Jongin pela cintura. Do mesmo jeito que Kyungsoo fazia com Chanyeol, Baekhyun riu. — Ou você pode desencanar dele e se divertir com a gente — ofereceu e Jongin concordou.

— Eu não vou pra cama com vocês — resmungou, voltando a beber. — E não é como se seus amigos maconheiros fossem dar um jeito na porra de um dos herdeiros mais ricos da Coreia, Hun. — Sehun concordou, deixando o assunto morrer. Os amigos nem eram tão fortes mesmo. — Me deixem, tá?

— Deixo, você faz o que achar melhor, bonitinho. — Jongin replicou, mostrando a língua. — Mesmo que você não tenha muito discernimento. Aliás, tem um cara olhando para cá faz um tempo, vai lá falar com ele. Já que Hunnie e eu não somos bons o suficiente para você — zombou.

— Você sabe que não é isso... — Tentou justificar, mas Jongin só sacudiu a mão e saiu, dando a deixa para o desconhecido se aproximar.

— Posso me juntar a você? — O estranho, de olhos de gato e cabelo platinado, sentou-se na banqueta ao seu lado, encostando as mãos pequenas no balcão. Baekhyun bufou discreto. Não queria transar hoje.

— Já juntou — retrucou, sem nenhuma paciência. Achou que ele iria se levantar e sair, os homens que frequentavam o lugar sempre faziam isso quando ele era grosso, mas ele só riu e sussurrou um “ótimo”.

Baekhyun virou para ele, mais para avaliar as opções do que qualquer coisa. O bar de Jongin era para ser o que chamavam LGBTQIA+ friendly, mas acabou virando um ponto de encontro de sexo casual para homens entediados — se um dia você for, aliás, evite os banheiros para não presenciar nenhuma cena com potencial traumático — e, por causa disso, Baekhyun não tratava as pessoas que conhecia lá com muito apreço. Dividia os caras entre os que poderia foder e os quais poderiam fodê-lo, sempre usando seu julgamento totalmente estereotipado para essas coisas.

Quando olhou para Kim Minseok, naquela noite péssima, pensou que iria terminar a noite como ativo, mas, para sua surpresa, o Kim não gostava de penetração e se contentou em chupá-lo num hotel qualquer.

Antes disso, conversaram no bar como bons amigos — depois que Minseok conseguiu derrubar a carranca de Baekhyun, claro. Minseok era mais velho, contou que fazia uma grana como cam boy; e, underline xiu, underline o, caso o Byun quisesse comprar seus vídeos vestido de gatinho e se divertindo com vibradores e dildos do tamanho de um antebraço. A revelação fez com que Baekhyun se sentisse à vontade para confessar algumas coisas igualmente nada puritanas.

Mas ele escolheu fazer isso enquanto Minseok estava de joelhos no chão empoeirado do quarto, as mãos amarradas nas costas com um lençol e a calça abaixada até a metade das coxas. À medida que o Byun falava e empurrava a cintura contra a boca do Kim, ele meio gemia, meio se afogava, fazendo o pau de Baekhyun parecer maior do que era.

— Aquele cara que eu te falei — murmurou, segurando a cabeça de Minseok e puxando seus cabelos. Mais cedo, no bar, fez uma breve introdução sobre “o cara por quem era interessado”. — Não é que eu quero transar com ele, eu quero só… sei lá, eu só queria que ele fosse solteiro. O namorado dele é um idiota.

Minseok fez força para afastar a cabeça da base do pênis de Baekhyun, descansando os lábios na glande e olhando para ele com os olhos lacrimejados.

— Eu duvido que você não queira transar com ele — provocou, fazendo Baekhyun arrepiar com sopro da risadinha que soltou alcançando seu membro molhado. — Você fala dele com muita devoção, aliás, às vezes transar com ele é o que você precisa pra se curar.

“Se curar” foi uma escolha interessantíssima de palavras. Minseok voltou a atenção para chupá-lo enquanto ele pensava no que sentia por Chanyeol. Mas, para isso, ele precisava rever alguns acontecimentos em suas lembranças.

Tudo acontecia há cerca de seis meses, quando o Park foi ao sebo pela primeira vez e eles se viram pela segunda, desde o casamento de Yoora. Baekhyun lembra da roupa que Chanyeol usava, inclusive que ele estava de óculos no dia e pediu água para tomar um antialérgico. “Livros velhos fazem meu nariz coçar”, ele disse. Adorável, o balconista pensou entregando a garrafa de água fechada em sua mão e observando ele abrir e tomar todas as 500ml de uma vez só. O pomo de adão subindo e descendo quando ele engolia e, lembrava, não teve nenhuma ideia suja com aquilo na hora.

Mas era diferente pensar em Chanyeol agora, ainda mais com Minseok se engasgando em seu pau. E essa era a parte boa de se envolver sexualmente com alguém que você acabou de conhecer. O Kim não ficaria magoado por Baekhyun imaginar outra pessoa lhe chupando, pelo contrário, ele estava adorando toda aquela brincadeira — que parecia mais uma sessão de terapia, onde o Byun tinha várias epifanias sobre o todo.

— Talvez eu devesse trazer ele aqui — arfou entredentes. — E foder a boca dele exatamente como estou fazendo com você, Minseokie.

Minseok até tentou responder, mas Baekhyun gozou e encheu sua garganta, ficando até um pouco desnorteado depois. Observou o Kim se arrastar, ainda de joelhos, para encostar o pau em sua perna — provavelmente dolorido já que não tinha sido tocado até agora —, então o ajudou a levantar e o colocou sentado na cama.

— Por que você não trouxe ainda? — perguntou, deixando um gemido alto escapar assim que Baekhyun encostou a língua em sua coxa, terminando de tirar sua calça.

— Como assim? — A expressão de Baek era um misto de dúvida com indignação, como se Minseok tivesse ignorado tudo que ele contou até agora, como se ele não soubesse que Chanyeol era intocável. — Ele nunca viria.

— Eu não disse que ele precisa querer — retrucou, levantando o quadril para tentar alcançar a boca do mais novo. Baekhyun riu.

— Você é inacreditável — concluiu, se concentrando em masturbá-lo. Minseok era melhor quando não estava falando nada.

— Vai dizer que nunca pensou nisso?

 

[x]

 

Ter estado com Minseok desajustou sua cabeça que, convenhamos, já não era a das mais centradas e corretas. Nos dias que seguiram, viu Chanyeol mais duas vezes na loja e ficou imaginando se ele era tão pesado quanto parecia por causa da altura, o que dificultaria carregá-lo caso estivesse embriagado ou dopado.

Merda, Minseok.

 

— Então você transou com um cara que te disse pra sequestrar o Chanyeol? — Sehun repassou os fatos, sussurrando para não ser ouvido por Jongin, mas ainda dizendo em voz alta porque precisava daquilo para acreditar no absurdo.

— Não sei se sequestrar é a palavra, mas ele me deu umas ideias muito imbecis. — Balançou o copo, o gelo do uísque fazendo barulho. Eles estavam ocupando duas poltronas longe do balcão, olhando Jongin servir alguns rapazes alegres demais para uma terça-feira.

— Realmente, é bem absurdo. Até porque como você vai carregar ele por aí contra vontade? O cara tem o dobro do seu tamanho — concluiu, como se colocar limitações em Baekhyun fosse o melhor jeito de tirar ideias mirabolantes e possivelmente criminosas de sua cabeça.

— Nah, eu sou mais forte do que pareço — defendeu, fazendo Sehun arquear a sobrancelha.

— Por Deus, me prometa que não vai fazer nenhuma merda — pediu, chutando o coturno de Baekhyun para chamar sua atenção. — E joga esse sapato horroroso fora.

— Não vou fazer nada — garantiu, levantando a palma da mão num juramento. — Principalmente porque eu percebi que só gosto de olhar pra ele. Quantos malucos que você conhece sequestram pessoas para olhar pra elas?

— Alguns — respondeu sério, sem entender a tentativa de piada do Byun. — Enfim. Não faça nada que eu não faria. — E brindou com o copo vazio antes de levantar-se e ir até o balcão ajudar Jongin.

 

Baekhyun era um desses malucos que gostam de olhar pessoas. Não é difícil desenvolver preferências assim quando se trabalha num lugar quieto, que requer muita atenção às minúcias, ou com câmeras, captando cada detalhe de pessoas distraídas. Ainda tinha os arquivos do casamento da Park mais velha e até abriu um projeto no editor de vídeos para recortar todas as vezes que Chanyeol aparecia — e eram muitas.

A noite que passou com Minseok fez vários pensamentos borbulharem em sua mente, principalmente os que diziam respeito ao que faria se tivesse a oportunidade de fazer o que quisesse com Chanyeol. E o que ele queria?

 

Realmente, só criando a situação para saber.

 

Olhando para a tela do computador, já tinha praticamente decorado os movimentos do Park no dia da cerimônia. As pintas que ele tinha no nariz e na maçã do rosto, a linha do seu cabelo, a maquiagem discreta, o cabelo sedoso. Conhecia tudo que Chanyeol deixava conhecer graças ao seu poder de observação e a obsessão por gravar cada pedaço dele com toda atenção que tinha.

 

Talvez fosse a hora de aceitar que era obcecado. E tomar uma atitude sobre isso.

 

Repassava o plano que tinha feito discretamente em sua cabeça, como se precisasse pensar baixo e não deixar sua consciência ouvir a bobagem que estava prestes a fazer. “Eu nunca machucaria Chanyeol ou faria algo que ele não quisesse” era seu lema, mas, bom. As coisas são diferentes na prática e nem toda mudança acontece para o melhor.

 

— Trouxe isso para você — contou, tirando uma capa de DVD de uma gaveta. Chanyeol voltou a atenção para Baekhyun, deixando o livro que escolheu em cima do balcão e sorrindo. — É o curta que eu dirigi. Te contei, né, que sou aspirante a cineasta.

— Ah, isso é muito legal, Baek. Eu com certeza vou assistir — garantiu, olhando rápido para o título impresso num pedaço de papel. — A flor bruta que deseja o que não pode ter? — Leu, virando para Baekhyun com a sobrancelha levantada.

— É isso. Mais no sentido do “querer” ser algo bruto, que ainda não foi lapidado, mas também delicado como uma flor — explicou, deixando o Park quieto, esperando uma conclusão. — Ah, não é nada demais, haha, só uma coisa experimental.

— Gostei da reflexão. Querer algo é bem genérico, porém, profundo, dependendo do que você quer — pontuou, interessado no raciocínio do outro. — Diga, Baek, qual a coisa que você mais quer no mundo?

Baekhyun engoliu seco. Ser questionado sobre seus desejos mais íntimos, e qual desejo não seria, justo pela pessoa que tem toda sua adoração, era de estarrecer.

— Eu não penso muito nisso — gaguejou, abaixando a cabeça. Olhar nos olhos de Chanyeol seria um erro irreparável, àquela altura.

— Nadinha mesmo? — insistiu, se debruçando no balcão e tentando fazer com que o Byun o encarasse. — Uma viagem, um trabalho diferente, uma pessoa, nada?

— Não... — Se manteve firme. — Talvez viver de fazer filmes, mas é um querer distante demais. Já me contento com o que tenho.

— Justo. — Aceitou a resposta, voltando para a posição anterior, reto em frente ao caixa. — Acho que não tem nada que eu queira muito, também. Pode não parecer, mas eu sou simples, fácil de agradar.

— Isso é bom — finalizou, passando o código do livro no leitor de preços. — Espero que meu filme lhe agrade. Não espere muito.

— Não vou. — Sorriu novamente, pegando a sacola que Baekhyun lhe estendeu. — Até mais, Baek.

— Até.

 

[x]

 

Estava completamente fora de suas competências mentais. Era a única coisa que podia concluir naquela loja de materiais de construção, com uma corda e dois rolos de fita super adesiva no carrinho. “Silver tape”, alta adesão, polietileno reforçado com tecido laminado de algodão. Deveria servir ao propósito.

 

Mas ele iria negar até o último suspiro que planejou algo assim.

 

— Vi seu filme. — Chanyeol contou alguns dias depois, quando visitou o sebo. Estava acompanhado de Kyungsoo, que decidiu esperar no carro por algum milagre. — É bem experimental mesmo.

— Jura? — Esperava ouvir mais, então só pediu uma confirmação. — Nah, é terrível, pode falar.

— Não é, sério. — Riu, olhando para a vitrine, talvez para checar se o Do estava olhando. — Eu gostei, mas fiquei decepcionado, achei que você iria aparecer.

— Eu só dirigi, atuar não é minha praia — confessou, definitivamente empolgado em ouvir que Chanyeol esperava vê-lo.

— Pois deveria. Você ficaria bonito naquele filme, principalmente nas cenas de close no rosto. — E colocou a nota, sempre maior do que o valor do livro que escolheu, dobrada dentro do bolso do avental do Byun, dando as costas após um sorriso. Chanyeol era sempre assim, cheio dos sorrisos e das frases dúbias.

— Você também ficaria — exclamou quando Chanyeol estava prestes a alcançar a porta. Ele virou, sem entender.

— Perdão?

— Você também ficaria bonito num filme — repetiu, com a voz meio estremecida, se arrependendo em seguida do que disse pelo jeito que as orelhas do Park mexeram. Mas ele riu, soltando o ar pelo nariz, trocando a sacola de mão para acenar antes de sair. Baekhyun sabia que ele concordava e, inconscientemente, quis que Chanyeol protagonizasse todos os filmes que ele nunca iria produzir. Pelo menos não para mostrar para outras pessoas.

 

Pensamentos, vários pensamentos. E enquanto lia o rótulo rasgado da fita que prometia fixação impecável e não dissolvia de jeito nenhum, pôde concordar com os fabricantes. Chanyeol não conseguiu se mexer desde que acordou, mesmo estando inquieto e desesperado.

 

Foi tudo muito rápido, não podia deixar oportunidades para sua consciência culposa tomar as rédeas e desistir de tudo. Chamou o Park até o depósito num dia que ficaram até mais tarde no sebo. O carro previamente estacionado na saída, o pano embebido com clorofórmio dentro de um saco plástico jogado em um canto. Quase desistiu. Mas Chanyeol tinha aquela coisa no olhar, ele era condescendente demais. Baekhyun odiava porque quase podia sentir que era correspondido. Odiava sentir que era completamente insano.

— Você precisa ir a algum lugar? Posso ir embora se quiser. — Chanyeol ofereceu, percebendo a inquietação do Byun, que colocava e tirava a mão do bolso e olhava para o relógio como se esperasse a forca.

— Não, fique à vontade. Eu prometi te mostrar o depósito, então vou cumprir — garantiu, andando até uma das prateleiras de madeira e se apoiando nela. — Não tenho nenhum lugar para ir.

— Perfeito. — Sorriu, voltando a atenção os livros que tinha em mãos. Estava sentado enquanto Baekhyun estava em pé, o olhando de cima. — Essa dedicatória é bonita. Posso ler para você?

— Eu adoraria — assentiu, caminhando até a sacola. Parecia que o plástico o chamava do outro lado, lembrando-o do plano mirabolante e terrível a todo instante.

— Choi, a sensação de ser um estranho em sua vida é corrosiva. — Chanyeol começou a ler, olhando apenas para o livro que segurava com cuidado. — Crescemos juntos e nos amamos como se o mundo dependesse do nosso sentimento, mas agora tudo parece tão distante... Sempre te disse que nem sempre o caminho mais curto é o melhor; os caminhos longos também levam aos lugares que queremos ir e a viagem é sempre mais prazerosa do que a chegada. E tempo é tudo que temos, e justo o que não podemos acumular.

Baekhyun prestou atenção da maneira que conseguia enquanto abria a sacola com cuidado para não fazer barulho e acabar atrapalhando a leitura do outro. Realmente, o tempo não é passível de acúmulo. O tique taque do relógio o lembrava disso, soando quase como uma ameaça. Chanyeol respirou fundo e continuou.

— Não posso julgar seu trajeto, muito menos voltar e te buscar pelo caminho, e isso me machuca de certa forma. Porém é exatamente como a vida é. Espero que aproveite o tempo lendo esses poemas, eles me fizeram lembrar de você, e que um dia possa me perdoar por não poder te perdoar e continuar julgando suas escolhas. Com amor, Lee.

Chanyeol fechou o livro e virou para encarar Baekhyun, mas não o encontrou parado no lugar de antes. Ao invés disso, apenas um pano molhado em sua frente. Baekhyun segurou sua cabeça por trás e afundou o tecido em sua boca e narinas, sussurrando que tudo ficaria bem. O corpo grande do Park sentiu os efeitos do composto, tendo espasmos pouco antes de ele desmaiar.

Ainda apoiando a cabeça de Chanyeol, que levou menos de um minuto inteiro para cair desacordado, se aproximou dos seus cabelos e respirou fundo, obviamente tomando cuidado para não inalar a substância também. O cheiro do xampu e da pele dominando seu olfato, ele repassou o que faria a seguir.

Tinha comentado com Sehun que era mais forte do que parecia, mesmo assim tratou de levantar alguns pesos diariamente uma semana antes. Até mesmo na loja, quando comprou a corda e a fita, ergueu dois sacos de cimento e andou de uma ponta da prateleira a outra. Chanyeol não era pesado, devia ter menos de 80 quilos, e foi mais fácil do que imaginou carregá-lo do depósito para dentro do carro.

Corria tudo perfeitamente até ele chegar próximo do veículo. Um desconhecido passava pela rua e se compadeceu de Baekhyun, que arfava e suava um pouco, tanto pelo esforço quanto pela adrenalina de estar fazendo aquilo tudo.

— Com licença, está tudo bem? Você precisa de ajuda? — pronunciou, tocando no ombro do menor. Seu estômago revirou, pensando nas coisas que o estranho poderia fazer caso desconfiasse da situação. Coisas como chamar a polícia.

— Meu amigo passou mal, mas está tudo bem, estamos indo para casa. — Sorriu desconfortável, tentando passar confiança, mas era realmente difícil. — Agradeço a preocupação.

— Não foi nada. — O estranho respondeu. — Tem certeza? Posso chamar um táxi.

— Meu carro está logo ali, obrigado. — Fechou a cara, apertando a pegada em volta da cintura do Park e puxando o braço dele que estava acomodado em seu ombro. O rapaz não disse mais nada, apenas assentiu e continuou seu caminho.

Mesmo com o plano tecnicamente fechado, tinha algumas opções: ou dirigia até a casa de campo de Jongin — uma chácara deserta na estrada para Busan, sabendo que a chave estava escondida em algum vaso de planta —, ou iria para o hotel de sempre, pedindo o mesmo quarto em que esteve com Minseok. A primeira incluía Jongin, e possivelmente Sehun, como cúmplices daquilo que estava fazendo, além de que o lugar era distante e Chanyeol iria acordar no trajeto. A segunda era a mais confiável, já que nenhum funcionário do lugar se importava com o estado que as pessoas chegavam ou deixavam o hotel, desde que pagassem. E foi o que fez.

Quando abriu a porta do quarto, tratou de andar até a cama e deixar Chanyeol por lá, recuperando o fôlego pelo esforço que fez e fechando a porta. Abriu a mochila e cortou um pedaço da fita, tocando os lábios do Park com a ponta dos dedos antes de colá-los com o adesivo cinza. Não pensou em beijá-lo, como se aquela fosse a linha que ele nunca iria ultrapassar — ou como se o que estava fazendo agora não fosse terrível o suficiente.

Tirou os sapatos de Chanyeol com todo o cuidado que restava, colocando o par numa sacola e usando a fita para prender suas pernas juntas, de um jeito que ele não pudesse andar, muito menos correr. Enfiou a jaqueta que ele usava junto do calçado, no saco plástico, e soltou três botões da camisa. Já a corda foi para o pescoço do Park, com as pontas amarradas num nó em oito, e aí ele pensou que ter sido escoteiro não foi de toda inutilidade, prendendo suas mãos em cima da cabeça com os braços de um jeito que ele se asfixiaria sozinho se os esticasse.

 

Baekhyun esperava que isso não acontecesse.

 

A comoção que a cena causou fez com que suas pernas amolecessem. Chanyeol, completamente vulnerável, exposto, desamparado. Baekhyun jurava que nunca veria aquilo, mesmo meia-hora antes, quando ainda duvidava que consumaria o plano. Plano que, inclusive, acabava ali. Não tinha ideia do que faria depois, ou do que fariam consigo quando fossem encontrados. Tinha certeza de que Kyungsoo já notara a falta do namorado, mas ele desligou o celular de Chanyeol e, ao menos no hotel, eles não seriam encontrados. Bom, ele esperava.

 

[x]

 

Cena um, interior, hotel.

O quarto revirado, não porque eles bagunçaram e sim porque condizia com o preço. O chão empoeirado, igual da última vez, os lençóis cheirando cigarro. Chegaram há aproximadamente vinte minutos, Chanyeol começa a se mexer, ameaçando acordar. Baekhyun corre até sua mochila e tira de lá sua filmadora analógica de segunda mão e confere se o filme está bem encaixado. O clac que o objeto faz assim que ele pressiona o botão de iniciar faz Chanyeol abrir os olhos. Em segundos, percebe o que está acontecendo e se desespera. Baekhyun diminui a intensidade da luz e se move lentamente ao redor do Park.

 

Tocar sem deixar marcas.

Deixar rastros, sem cicatrizes.

Chanyeol arrepiou quando sentiu os dedos gelados de Baekhyun em seu rosto. Ele estava com medo, mas não era o único.

       

O cheiro do que quer que fosse aquela droga que ele usou para fazê-lo desmaiar dava vontade de tossir e agora, ainda tonto, ele não queria gritar porque sabia que iria dificultar sua respiração, principalmente pelo adicional da corda no seu pescoço. Se concentrou em juntar saliva e tentar soltar a cola dos lábios.

 

Fechou os olhos em desespero quando Baekhyun o tocou de novo. O Byun entendeu errado e se inclinou para beijar sua testa. Era um sociopata, Chanyeol precisava sair dali.

Com a câmera na mão, ele não falava absolutamente nada, talvez por sentir que sua voz poderia quebrar o momento, ou, se fosse possível, denunciar sua localização. Tudo que o maior conseguia pensar era “porra, Kyungsoo, você ainda não deu a minha falta.”

Sorte que ele estava errado.

 

De volta à mochila de utilidades, voltou com uma tesoura. O Park já imaginava qualquer coisa, mas ele só cortou uma mecha de seu cabelo. A fita cedeu com a força da saliva, não era das melhores. Encheu os pulmões de ar.

— Você é um maluco do caralho — murmurou abalado. Baekhyun arregalou os olhos, sorrindo alterado.

— É a primeira vez que você me trata assim — pontuou, sem o menor rancor, grato pela falta de indulgência de Chanyeol. — Isso te torna mais humano, de alguma forma.

— Kyungsoo vai te matar — cuspiu, ignorando o absurdo que Baekhyun tinha falado. “Mais humano”, como se ele tivesse em posição de tratar de humanidades.

— Eu aposto que sim — concordou, mantendo a expressão. — A vida é assim, certo? — A fala fez Chanyeol lembrar da dedicatória do livro, o Byun entendeu o choque do outro na hora. — Ah, eu não escolhi o livro de propósito. Apesar de que faz certo sentido, haha, a sensação de ser um estranho para você é corrosiva.

— Você é um maníaco dos infernos. — Ele apenas ignorou, forçando as pernas e os braços, a corda apertando no pescoço. Baekhyun soltou uma risadinha pelo nariz.

— É melhor você não abaixar muito os braços, seu pescoço vai ficar marcado. — Tornou a atenção para o visor minúsculo da câmera, subindo as lentes para as amarras que tinha feito em seus pulsos. — Sua pele é muito bonita.

Continuou em silêncio, preparando o psicológico para o que viria a seguir. Mas nada, nada nesse mundo, iria prepará-lo para o que aconteceu. Baekhyun começou a cantar. Qualquer coisa, não importava a música, mas ele ficou lá murmurando e cantarolando o que dava na telha, dando certeza que era completamente alucinado. E, do outro lado, ainda pensava no que faria com Chanyeol.

 

[x]

 

A música enchia as paredes do bar, prestes a encerrar o expediente, e Sehun organizava as taças no lugar. Jongin secou a mão no avental e subiu o andar. Morar no trabalho tinha poucas vantagens, essa era definitivamente uma delas.

Baekhyun continuava desacordado, gelado demais, recém limpo de seus ferimentos causados por todos os objetos contundentes que o Do conseguiu achar no quarto naquela noite. Descobriu que não era páreo para ele, tarde demais. A câmera foi quebrada, o filme só existia em sua cabeça.

— Ele é um imbecil, né? — Sehun sussurrou assim que alcançou o Kim, encostado no batente da porta. — Que ideia de merda. Será que o Chanyeol vai chamar a polícia?

— Acho que não. Bateram demais nele, se envolverem a polícia vão precisar explicar como ele ficou assim — contou Jongin, colocando as costas da mão na testa de Baekhyun para verificar sua temperatura. — Mas que caralho, Baekhyun...

— Quer dizer, dos males o menor, né. Pelo menos ele não fez nada com o Chanyeol. Digo, não que a gente saiba e tal— pontuou, recebendo um olhar mortal do namorado. — Você sabe do que eu ‘tô falando, Ni.

— Não alivia em nada. Alguém te sequestrar pra te filmar e cortar seu cabelo é igualmente assustador. Principalmente alguém que você vê todos os dias. — Suspirou. — Se ele não estivesse tão acabado, eu juro que iria quebrar a cara dele.

— O chefinho já fez isso — zombou e Jongin bufou, abrindo a boca para reclamar. — Tá, tá, eu paro de brincar. Só estou fazendo isso porque ele ‘tá bem, ó, está até corado.

— Isso é sangue seco — corrigiu. — Eu pedi pra você limpar ele direito.

— Foi mal — desculpou-se e saiu, antes que a fúria do Kim caísse sobre si. Sehun não era a melhor pessoa do mundo com palavras.

— ‘Tá acordado? — sussurrou, encostando no joelho inchado de Baekhyun. Ele gemeu de dor, Jongin continuou. — Que merda você ‘tava pensando?

— Acho que em nada — respondeu abafado pela dor. — Kyungsoo quebrou minha perna.

— Dê graças que ele não te matou — reclamou. — O que eu te disse, Baek? Por Deus, você não tem o mínimo de juízo. E sempre, sempre, vai ter alguém mais maluco que você.

— Ele me olhou de um jeito, Ni. — Fitou o nada, sorrindo em seguida e fazendo o rosto doer.

— Pff. Não quero ouvir. — Levantou, desistindo da conversa e deixando Baekhyun sozinho.

 

[x]

 

— Eu faço o que você quiser, desde que você não me machuque — Chanyeol pediu, depois de um tempo. Baekhyun não parava de tocar seu rosto e toda aquela história de guardar uma mecha de seu cabelo num pacote fazia o Park pensou que sairia daquele hotel do mesmo jeito: em pedaços dentro de sacos plásticos.

O Byun parou, deixou a câmera de lado e olhou para ele como se Chanyeol tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

— Eu nunca machucaria você — retrucou o que para si era óbvio.

— Já está machucando.

— Eu sinto muito.

— Você quer me beijar?

Baekhyun paralisou. Que tipo de ideia passava na cabeça de Chanyeol?

Veja, eram cenários muito bem delineados, mesmo que não fosse possível saber. Enquanto acreditava estar produzindo a cena mais bela de toda sua vida, aproveitando Chanyeol e sua imagem em todos os ângulos e movimentos limitados que apenas ele podia ver, o maior presenciava a coisa toda de um ponto de vista muito mais assustador. Baekhyun era doente, no chulo do significado, e Chanyeol estava disposto a qualquer coisa para se safar daquilo sem traumas muito maiores do que os que já tinha adquirido.

— Não, claro que não. Você tem namorado — respondeu, virando para alcançar a câmera, mas foi surpreendido por Chanyeol. Ele abaixou o braço de supetão para segurar as mãos de Baekhyun, apertando ainda mais o nó em seu pescoço.

— Por favor — pediu. Baekhyun ainda não tinha entendido. — Você só precisava ter me pedido, não precisava ter feito nada disso. Era só pedir.

 

Chanyeol estava chorando. Só então Baekhyun teve o choque de realidade.

 

Chanyeol chorava e apertava propositalmente cada vez mais o nó, não deixando nenhuma opção para Baekhyun que não fosse soltá-lo. Assim que cortou a corda, o Park o envolveu, passando os braços em volta de seu pescoço e afundando o rosto em seu ombro, só para depois usar a mão e arrancar a fita da boca de uma só vez.

— Eu não entendo — murmurou, sem nenhuma chance de continuar falando quando o Park invadiu sua boca com a língua, deitando seu corpo na cama.

Mesmo depois, prostrado na cama de Jongin com a constituição de um capacho, pensava na boca de Chanyeol. Ela era muito mais do que ele esperaria, além do que imaginou no dia em que fingiu que Minseok era o Park. Principalmente depois de ter vivido a cena em particular.

Chanyeol estava desesperado. As pernas ainda presas, as mãos amarradas, mas soltas do pescoço e com muito mais movimento do que antes, foi ao chão de joelhos e se segurou nas calças de Baekhyun. Ele estava duro, como esperava que estivesse, afinal, era um doente pervertido. O plano relâmpago que Chanyeol bolou era algo como mordê-lo do jeito mais dolorido que conseguisse para sair correndo e pedir ajuda, mas nada saiu como esperado.

Não com Baekhyun o olhando daquele jeito.

Os olhos grandes, assustados e ansiosos pelo que estava prestes a acontecer, a boca entreaberta quando Chanyeol abriu o zíper e puxou o tecido jeans com cueca e tudo de uma só vez, fazendo seu pau molhar a camiseta com o pré-gozo. Se encararam durante todo o ato, enquanto Baekhyun suspirava e gemia e Chanyeol subia e descia com a língua, alternando os movimentos para colocar tudo que podia do membro do outro na boca. Usou as mãos para entrelaçar os dedos do Byun em seu cabelo e, pouco depois, Baekhyun já estava empurrando a cabeça de Chanyeol contra seu pênis com a força que ele demandava.

Foi então que a porta do quarto abriu. E os reflexos do Park foram rápidos, ele começou a gritar, abafado pelo pau do menor, claro. Desgraçado. Baekhyun quis rir.

 

Sempre existe alguém mais louco.

 

Depois disso, tudo que veio foi dor. Por sorte, conseguiu guardar o pau na calça ou tinha certeza de que Kyungsoo arrancaria suas bolas. Chanyeol chorava no canto, falso como poderia ser, assistindo o namorado jogar Baekhyun no chão e agredi-lo com a câmera, depois com um abajur, uma cadeira, para então desistir dos objetos e usar apenas os punhos e os pés. Chanyeol demorou demais para pedir para que ele parasse, nem o sague que Baekhyun cuspiu no piso já sujo o comoveu. Só parou quando o recepcionista chegou acompanhado de dois seguranças.

Eles saíram, Baekhyun ficou — não tinha outra opção, já que não conseguia se mexer. Jongin chegou dez minutos depois, quando o dono do lugar reconheceu o cliente e soube a quem recorrer. Do hospital para a casa, ele repassava a humilhação várias vezes tentando entender, mas não chegava a nenhuma conclusão.

 

[x]

 

— Você vai voltar pro trabalho essa semana? — Sehun perguntou, colocando um prato com duas fatias de pão com manteiga e um copo de café em sua frente. Ainda tinha dificuldade para andar sozinho por causa da perna quebrada, então estava hospedado na casa dos amigos. — Tem certeza de que é uma boa ideia?

— Não tenho outra opção. Já faz quase vinte dias — respondeu, mordendo o pão e sentindo a mandíbula fisgar. — A vida segue, não é?

— Tem razão, não tem motivo para ficar protelando isso. — Jongin concordou, bebendo seu café. Estava de frente para o Byun na mesa, olhando Sehun cozinhar. — Quer dizer, fora aquele motivo. O que vai fazer se ele aparecer lá?

— Não tenho ideia. Rir, acho.

— Do fato que ele é mais problemático que você? — O mais novo questionou, levando uma cotovelada de Jongin assim que passou por ele. — Qual é, vai falar que eu menti?!

— Nah, Hunie tem razão. É exatamente disso que vou rir.

Recostado no balcão do sebo, velho e habitual balcão, lembrava da conversa que teve com o casal mais cedo. Era tudo uma grande piada e ele estava satisfeito. Podiam rolar os créditos finais, não se importava. Divagou sobre isso até que uma mão segurando um livro velho entrou em seu campo de visão. A aliança no anelar esquerdo, casamento, se bem lembrava, praticamente cintilando no seu campo de visão. Se engasgou com a própria saliva quando levantou a cabeça e encontrou, com os olhos ainda inchados da surra, Chanyeol sorrindo para si.

— Vocês fazem embrulho de presente? — perguntou, ignorando o todo. Como se fosse a primeira vez, como se fossem desconhecidos.

— Não — respondeu, da maneira que conseguiu. Chanyeol arqueou os lábios.

— Tudo bem. Não preciso de troco, obrigado — agradeceu e pegou a nota fiscal, colocando o livro na parte mais baixa do balcão. — Espero que goste da leitura, Baek. E da dedicatória. Até mais.

Atordoado, ficou olhando o Park caminhar até a porta, como se ele fosse a primeira e única pessoa do mundo inteiro. Com a mão trêmula, sobre a capa do livro, Baekhyun suspirou. E depois riu, como disse que faria.